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OPINIÃO 9 de fevereiro de 2026 8 min

A comunicação social está a adoecer Portugal?

5h29min de televisão por dia. CMTV como canal de informação mais visto. Novelas de violência doméstica no prime-time. Entretenimento vulgar sem valor educativo. Enquanto os portugueses consomem quantidades recordes de antidepressivos, a comunicação social alimenta um ciclo tóxico de negativismo, medo e desesperança.

Televisao e solidao num cafe portugues
TV por dia

5h29m

3.o na Europa

CMTV share

10.7%

Mais que RTP1

Antidepressivos

131 DDD

2.o na OCDE

Psicólogos SNS

~600

Para 10M pessoas

A dieta mediática portuguesa

Os portugueses passam em média 5 horas e 29 minutos por dia a ver televisão (dados Marktest, 2024) — o 3.o valor mais alto da Europa. Mais de um terço do dia acordado é passado em frente a um ecrã que emite, predominantemente, conteúdo negativo.

Horas de TV por dia (média)

Roménia
5.8h
Grécia
5.6h
Portugal
5.48h
Itália
4.3h
Espanha
3.9h
Média UE
3.5h
Finlândia
2.8h
Suécia
2.5h

Fonte: Marktest / EBU Media Intelligence 2024

Enquanto um sueco vê 2h30 de televisão, um português vê o dobro. E não é televisão educativa — é um ciclo de notícias sensacionalistas, novelas com tramas de violência doméstica e traição, e entretenimento vulgar que normaliza o drama como forma de vida.

O que a TV mostra vs. o que não mostra

O QUE MOSTRA (em loop)

  • xCrime, acidentes, tragédias em loop contínuo
  • xNovelas com violência doméstica como entretenimento
  • xComentadores (juristas) em debates de gritaria
  • xEntretenimento vulgar sem valor educativo
  • xSensacionalismo: "se sangra, lidera"
  • xConflito político permanente sem propostas

O QUE NÃO MOSTRA (nunca)

  • +Empresários portugueses a inovar globalmente
  • +Dados económicos com contexto internacional
  • +Investigação científica portuguesa (excelente)
  • +Soluções que funcionam noutros países
  • +Debates técnicos com engenheiros e cientistas
  • +Histórias de sucesso e progresso real

O que diz a ciência

Mean World Syndrome

Gerbner (1976), revalidado 2023-2025

Exposição prolongada a notícias negativas leva as pessoas a percecionarem o mundo como mais perigoso e hostil do que realmente é. Quem vê mais TV acha que o crime é mais frequente, a violência mais comum, e o futuro mais negro.

Doomscrolling e ansiedade existencial

JMIR, Frontiers Psychology, 2024-2025

Consumo compulsivo de notícias negativas provoca ansiedade existencial e pessimismo sobre a natureza humana. Em Portugal, a CMTV é essencialmente doomscrolling em formato televisivo — crime em loop, 24 horas por dia.

Impacto direto na depressão

McLaughlin et al. (2022), Cureus (2023)

Exposição diária elevada a notícias negativas está associada a: maior preocupação no dia seguinte, aumento de desesperança, pensamento mais distorcido, e sintomas depressivos mensuráveis. Não é opinião — são dados clínicos.

Ciclo de reforço negativo

APA, WHO, 2024-2025

Pessoas com ansiedade e depressão consomem mais notícias negativas, o que agrava os sintomas, o que aumenta o consumo. Um ciclo vicioso que os media exploram para manter audiências.

O ciclo tóxico

O problema não é apenas o conteúdo — é o sistema. Redações sub-financiadas descobriram que o crime e o drama são baratos de produzir e garantem audiências. O modelo de negócio dos media portugueses está literalmente otimizado para gerar ansiedade.

1

Produção

Redações sub-financiadas priorizam crime/drama (é barato e dá audiência)

2

Emissão

Prime-time: novelas de violência. Notícias: "se sangra, lidera". CMTV em loop nos cafés.

3

Consumo

5h29min/dia. Idosos isolados especialmente vulneráveis. Sem alternativas acessíveis.

4

Perceção

Mean World Syndrome: portugueses acreditam que o país é pior do que os dados mostram.

5

Consequência

Desesperança, antidepressivos, menos iniciativa, jovens emigram — confirma a narrativa.

Repete-se todos os dias

O contraste nórdico: menos TV, menos antidepressivos

Os países nórdicos oferecem um contra-exemplo poderoso. Televisão pública forte com mandato educativo, menos horas de TV por dia, regulação do sensacionalismo, e resultados radicalmente diferentes em saúde mental e perspetiva de futuro.

IndicadorPortugalNórdicos
TV por dia5h29m~2h30m
Antidepressivos (DDD)13160-85
TV pública educativaLimitadaForte
Regulação sensacionalismoNenhumaAtiva
Psicólogos por 100k hab.650-80
Índice de felicidade56.oTop 10

Correlação não é causalidade. Mas quando vês o mesmo padrão — mais TV negativa, mais antidepressivos, mais desesperança — repetido consistentemente entre países, a evidência torna-se difícil de ignorar. Os nórdicos não são mais felizes por magia. Têm sistemas desenhados para informar, não para assustar.

O caso CMTV: 10.7% de share com 95% de drama

A CMTV ultrapassou a RTP1 em share (10.7% vs 10.4%) com um modelo editorial quase exclusivamente baseado em crime, acidentes, incêndios e drama. Está ligada o dia inteiro em cafés, salões de cabeleireiro e salas de espera por todo o país. É o fundo sonoro permanente de milhões de portugueses — e esse fundo sonoro é de medo, tragédia e desgraça.

Conteúdo típico de 1 hora de CMTV

Crime e violência40%
Acidentes e incêndios25%
Conflito político15%
Tragédias pessoais10%
Outros (incluindo positivo)10%

Estimativa baseada em análise de grelha. 90% do conteúdo é negativo.

Novelas: violência doméstica como entretenimento

O prime-time da SIC e TVI é dominado por novelas cuja trama central envolve, quase invariavelmente: violência doméstica, traição, vingança, manipulação e divisões de classe social. Estes conteúdos são apresentados como entretenimento familiar e vistos por milhões todas as noites. Normalizam o drama e o conflito como forma natural de relação humana.

Pergunta sincera: num país onde 1 em cada 4 mulheres sofre violência doméstica, deveria a televisão usar este tema como entretenimento de prime-time? Num país com consumo recorde de antidepressivos, deveria o "relaxamento" noturno ser 2 horas de drama, gritos e traição?

Soluções: não censura, mas exigência

Ninguém defende censura. Mas existe uma diferença entre liberdade de imprensa e irresponsabilidade editorial. O que propomos:

Mandato educativo reforçado para a RTP

A televisão pública deveria ser o contra-peso — debates técnicos, documentários, soluções internacionais, dados com contexto.

Regulação do sensacionalismo em horário nobre

Como já existe nos nórdicos. Não proibir, mas exigir contraponto e contexto. Obrigar a incluir dados positivos junto dos negativos.

Literacia mediática nas escolas

Ensinar crianças e jovens a identificar sensacionalismo, a procurar fontes, a distinguir facto de opinião. Já existe na Finlândia desde 2016.

Incentivar jornalismo de soluções

Apoios fiscais a media que pratiquem jornalismo construtivo — que não só identifique problemas, mas investigue soluções que funcionam noutros países.

Transparência de audiências por tipo de conteúdo

Obrigar canais a publicar que percentagem do tempo de antena é crime, drama, educação, soluções. Que os portugueses vejam os números.

Conclusão

A comunicação social portuguesa não é a causa da crise de saúde mental. Mas é um amplificador poderoso. Quando combinas 5h29min de negativismo diário com salários baixos, habitação cara, falta de perspetivas e acesso limitado a psicólogos, crias um cocktail perfeito para a desesperança.

Portugal precisa de um debate sério sobre a responsabilidade dos media. A CMTV não deveria ser o canal mais visto do país. As novelas não deveriam normalizar a violência. E os portugueses merecem uma televisão que informe, eduque e inspire — não que assuste, deprima e paralise.

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