A comunicação social está a adoecer Portugal?
5h29min de televisão por dia. CMTV como canal de informação mais visto. Novelas de violência doméstica no prime-time. Entretenimento vulgar sem valor educativo. Enquanto os portugueses consomem quantidades recordes de antidepressivos, a comunicação social alimenta um ciclo tóxico de negativismo, medo e desesperança.
5h29m
3.o na Europa
10.7%
Mais que RTP1
131 DDD
2.o na OCDE
~600
Para 10M pessoas
A dieta mediática portuguesa
Os portugueses passam em média 5 horas e 29 minutos por dia a ver televisão (dados Marktest, 2024) — o 3.o valor mais alto da Europa. Mais de um terço do dia acordado é passado em frente a um ecrã que emite, predominantemente, conteúdo negativo.
Horas de TV por dia (média)
Fonte: Marktest / EBU Media Intelligence 2024
Enquanto um sueco vê 2h30 de televisão, um português vê o dobro. E não é televisão educativa — é um ciclo de notícias sensacionalistas, novelas com tramas de violência doméstica e traição, e entretenimento vulgar que normaliza o drama como forma de vida.
O que a TV mostra vs. o que não mostra
O QUE MOSTRA (em loop)
- xCrime, acidentes, tragédias em loop contínuo
- xNovelas com violência doméstica como entretenimento
- xComentadores (juristas) em debates de gritaria
- xEntretenimento vulgar sem valor educativo
- xSensacionalismo: "se sangra, lidera"
- xConflito político permanente sem propostas
O QUE NÃO MOSTRA (nunca)
- +Empresários portugueses a inovar globalmente
- +Dados económicos com contexto internacional
- +Investigação científica portuguesa (excelente)
- +Soluções que funcionam noutros países
- +Debates técnicos com engenheiros e cientistas
- +Histórias de sucesso e progresso real
O que diz a ciência
Mean World Syndrome
Gerbner (1976), revalidado 2023-2025
Exposição prolongada a notícias negativas leva as pessoas a percecionarem o mundo como mais perigoso e hostil do que realmente é. Quem vê mais TV acha que o crime é mais frequente, a violência mais comum, e o futuro mais negro.
Doomscrolling e ansiedade existencial
JMIR, Frontiers Psychology, 2024-2025
Consumo compulsivo de notícias negativas provoca ansiedade existencial e pessimismo sobre a natureza humana. Em Portugal, a CMTV é essencialmente doomscrolling em formato televisivo — crime em loop, 24 horas por dia.
Impacto direto na depressão
McLaughlin et al. (2022), Cureus (2023)
Exposição diária elevada a notícias negativas está associada a: maior preocupação no dia seguinte, aumento de desesperança, pensamento mais distorcido, e sintomas depressivos mensuráveis. Não é opinião — são dados clínicos.
Ciclo de reforço negativo
APA, WHO, 2024-2025
Pessoas com ansiedade e depressão consomem mais notícias negativas, o que agrava os sintomas, o que aumenta o consumo. Um ciclo vicioso que os media exploram para manter audiências.
O ciclo tóxico
O problema não é apenas o conteúdo — é o sistema. Redações sub-financiadas descobriram que o crime e o drama são baratos de produzir e garantem audiências. O modelo de negócio dos media portugueses está literalmente otimizado para gerar ansiedade.
Produção
Redações sub-financiadas priorizam crime/drama (é barato e dá audiência)
Emissão
Prime-time: novelas de violência. Notícias: "se sangra, lidera". CMTV em loop nos cafés.
Consumo
5h29min/dia. Idosos isolados especialmente vulneráveis. Sem alternativas acessíveis.
Perceção
Mean World Syndrome: portugueses acreditam que o país é pior do que os dados mostram.
Consequência
Desesperança, antidepressivos, menos iniciativa, jovens emigram — confirma a narrativa.
O contraste nórdico: menos TV, menos antidepressivos
Os países nórdicos oferecem um contra-exemplo poderoso. Televisão pública forte com mandato educativo, menos horas de TV por dia, regulação do sensacionalismo, e resultados radicalmente diferentes em saúde mental e perspetiva de futuro.
| Indicador | Portugal | Nórdicos |
|---|---|---|
| TV por dia | 5h29m | ~2h30m |
| Antidepressivos (DDD) | 131 | 60-85 |
| TV pública educativa | Limitada | Forte |
| Regulação sensacionalismo | Nenhuma | Ativa |
| Psicólogos por 100k hab. | 6 | 50-80 |
| Índice de felicidade | 56.o | Top 10 |
Correlação não é causalidade. Mas quando vês o mesmo padrão — mais TV negativa, mais antidepressivos, mais desesperança — repetido consistentemente entre países, a evidência torna-se difícil de ignorar. Os nórdicos não são mais felizes por magia. Têm sistemas desenhados para informar, não para assustar.
O caso CMTV: 10.7% de share com 95% de drama
A CMTV ultrapassou a RTP1 em share (10.7% vs 10.4%) com um modelo editorial quase exclusivamente baseado em crime, acidentes, incêndios e drama. Está ligada o dia inteiro em cafés, salões de cabeleireiro e salas de espera por todo o país. É o fundo sonoro permanente de milhões de portugueses — e esse fundo sonoro é de medo, tragédia e desgraça.
Conteúdo típico de 1 hora de CMTV
Estimativa baseada em análise de grelha. 90% do conteúdo é negativo.
Novelas: violência doméstica como entretenimento
O prime-time da SIC e TVI é dominado por novelas cuja trama central envolve, quase invariavelmente: violência doméstica, traição, vingança, manipulação e divisões de classe social. Estes conteúdos são apresentados como entretenimento familiar e vistos por milhões todas as noites. Normalizam o drama e o conflito como forma natural de relação humana.
Pergunta sincera: num país onde 1 em cada 4 mulheres sofre violência doméstica, deveria a televisão usar este tema como entretenimento de prime-time? Num país com consumo recorde de antidepressivos, deveria o "relaxamento" noturno ser 2 horas de drama, gritos e traição?
Soluções: não censura, mas exigência
Ninguém defende censura. Mas existe uma diferença entre liberdade de imprensa e irresponsabilidade editorial. O que propomos:
Mandato educativo reforçado para a RTP
A televisão pública deveria ser o contra-peso — debates técnicos, documentários, soluções internacionais, dados com contexto.
Regulação do sensacionalismo em horário nobre
Como já existe nos nórdicos. Não proibir, mas exigir contraponto e contexto. Obrigar a incluir dados positivos junto dos negativos.
Literacia mediática nas escolas
Ensinar crianças e jovens a identificar sensacionalismo, a procurar fontes, a distinguir facto de opinião. Já existe na Finlândia desde 2016.
Incentivar jornalismo de soluções
Apoios fiscais a media que pratiquem jornalismo construtivo — que não só identifique problemas, mas investigue soluções que funcionam noutros países.
Transparência de audiências por tipo de conteúdo
Obrigar canais a publicar que percentagem do tempo de antena é crime, drama, educação, soluções. Que os portugueses vejam os números.
Conclusão
A comunicação social portuguesa não é a causa da crise de saúde mental. Mas é um amplificador poderoso. Quando combinas 5h29min de negativismo diário com salários baixos, habitação cara, falta de perspetivas e acesso limitado a psicólogos, crias um cocktail perfeito para a desesperança.
Portugal precisa de um debate sério sobre a responsabilidade dos media. A CMTV não deveria ser o canal mais visto do país. As novelas não deveriam normalizar a violência. E os portugueses merecem uma televisão que informe, eduque e inspire — não que assuste, deprima e paralise.
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