Antidepressivos em Portugal: o 2.º país que mais consome na OCDE
Com 131 doses diárias definidas por 1000 habitantes, Portugal é o segundo país da OCDE com maior consumo de antidepressivos. Um crescimento de 87% desde 2010 que levanta questões sérias sobre as causas estruturais do mal-estar português.
131
DDD/1000 hab.
2.º na OCDE (2023)
+87%
Crescimento desde 2010
De 70 para 131 DDD
5%
Investimento saúde mental
Do orçamento de saúde
~600
Psicólogos no SNS
1 por 17.000 utentes
Ranking OCDE: consumo de antidepressivos
Doses diárias definidas (DDD) por 1000 habitantes/dia. A DDD é a dose média de manutenção diária para a indicação principal de um medicamento.
Fonte: OCDE Health Statistics 2023, Infarmed
Evolução 2010-2023: Portugal vs. Média OCDE
Fonte: OCDE Health Data, Infarmed, Nature 2023
Causas identificadas
Causas Estruturais do Sistema
Consultas de 10 minutos
Médicos de família sobrecarregados prescrevem antidepressivos como solução rápida em vez de referenciar para psicologia
600 psicólogos no SNS
1 psicólogo para ~17.000 utentes. OMS recomenda 1 para 1.000. Espera média: 6+ meses
Cultura da medicação
Prescrição sem acompanhamento terapêutico. Muitos pacientes tomam antidepressivos durante anos sem reavaliação
5% do orçamento de saúde
Portugal investe apenas 5% do orçamento de saúde em saúde mental. Média OCDE: 8.5%
Causas Socioeconómicas
Precariedade laboral
60% dos jovens empregados têm vínculos precários. Portugal é 27.º em 38 no Youth Employment Index
Crise habitacional
Rendas absorvem 40-60% do rendimento. 95% dos jovens 15-24 vivem com os pais
Salários baixos
75% dos jovens 18-35 ganham menos de 1.000 EUR líquidos. Mediana (15-24): 818 EUR
Emigração como única saída
53% dos jovens 18-35 considera emigrar. Quem fica vê os amigos partir e perde a rede de suporte
Nota sobre COVID-19
A pandemia agravou os indicadores de saúde mental, mas a tendência de crescimento do consumo de antidepressivos em Portugal é anterior a 2020. O aumento de 34.7% entre 2016-2019 (pré-COVID) demonstra que este é um problema estrutural, não conjuntural.
Investimento em saúde mental (% do orçamento de saúde)
Fonte: OCDE, DGS, OMS
Soluções propostas
Triplicar psicólogos no SNS
De 600 para 2.000 psicólogos clínicos integrados nos cuidados primários. Custo estimado: ~50M EUR/ano. Retorno estimado em menos prescrições e absentismo: 150M+ EUR
Consultas de 20+ minutos
Menos utentes por médico de família para permitir avaliações adequadas antes de prescrever. Referenciar para psicologia antes da medicação
Reavaliação obrigatória
Revisão obrigatória da prescrição de antidepressivos a cada 6 meses. Plano de desmame progressivo quando clinicamente adequado
Atacar as causas raiz
Salários dignos, habitação acessível, emprego estável. A saúde mental não se resolve apenas com mais psicólogos — resolve-se com perspetivas de futuro