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OPINIÃOEDUCAÇÃO8 de fevereiro de 202612 min de leitura

Engenheiros vs. Advogados: quem deve comentar a economia portuguesa?

Analisámos os planos de estudo das maiores faculdades de Direito de Portugal e comparámos com Engenharia e Economia. A conclusão é clara: os advogados não têm formação para analisar dados, economia avançada ou indústria. Mas são eles que dominam os painéis televisivos. Portugal precisa de ouvir engenheiros, técnicos e empresários.

Engenharia vs Direito: duas formacoes diferentes

0

Estatística em Direito

Cadeiras

5%

Economia em Direito

Do curso total

120+

ECTS Economia (Econ.)

vs 12 em Direito

~70%

Comentadores juristas

Painéis TV

O problema: quem fala não sabe ler dados

Em Portugal, os painéis televisivos sobre economia, indústria e o futuro do país são dominados por advogados e juristas. Comentam PIB, inflação, política fiscal, transformação digital, inteligência artificial, reindustrialização e competitividade - temas que exigem formação quantitativa que simplesmente não possuem.

Não é uma questão de inteligência individual. É uma questão de formação. Um advogado pode ser brilhante no seu campo, mas a sua licenciatura não o preparou para analisar séries temporais, interpretar regressões, avaliar modelos económicos ou compreender cadeias de valor industriais.

O que cada curso ensina: a comparação

Analisámos os planos de estudo oficiais da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC), e comparámos com cursos de Engenharia e Economia.

CompetênciaDireitoEngenhariaEconomia
Estatística / Análise de dados
Econometria / Modelos preditivos
Matemática avançada
Macroeconomia avançada
Microeconomia / Mercados
Política fiscal / Monetária
Contabilidade / Balanços
Engenharia de sistemas
Cadeias de valor / Indústria
Tecnologia / Inovação
Argumentação retórica
Interpretação de leis

Fontes: Planos de estudo FDUL 2024/25, FDUC 2024/25, IST 2024/25, ISEG 2024/25

A diferença em números: ECTS dedicados

O sistema europeu de créditos (ECTS) permite uma comparação directa do peso de cada área na formação total. Os resultados são esmagadores:

Licenciatura em Economia (ISEG)

120 / 240 ECTS

Economia, econometria, estatística, matemática

50%

Engenharia Informática (IST)

180 / 300 ECTS

Matemática, estatística, programação, sistemas

60%

Engenharia Mecânica (IST)

160 / 300 ECTS

Matemática, física, termodinâmica, materiais

53%

Licenciatura em Direito (FDUL)

12 / 240 ECTS

Economia I (obrigatória) + Economia II (opcional)

5%

Um licenciado em Economia tem ~120 ECTS de formação quantitativa. Um engenheiro informático tem ~180 ECTS. Um advogado tem 12 ECTS de economia introdutória - literalmente 10x menos formação na matéria do que um economista. Zero cadeiras de estatística. Zero econometria. Zero análise de dados.

O que Direito realmente ensina (e ensina bem)

É importante reconhecer o que uma licenciatura em Direito ensina bem. As ~40 disciplinas de um curso de 4 anos são dedicadas a:

Direito Civil

Obrigações, Reais, Família, Sucessões

Direito Público

Constitucional, Administrativo, Fiscal

Direito Penal

Penal I-III, Processual Penal

Direito Processual

Processual Civil I-III

Direito Internacional

Público, Privado, da UE

Fundamentos

Romano, História, Filosofia

Esta formação produz excelentes juristas, advogados e magistrados. Treina argumentação retórica de altíssimo nível - a capacidade de defender qualquer posição com aparente autoridade e convicção. E é precisamente isso que os torna perigosos quando comentam economia: a confiança ao falar não é competência técnica.

Porque é que precisamos de ouvir engenheiros, técnicos e empresários

Engenheiros pensam em sistemas

Um engenheiro analisa um problema como um sistema: inputs, outputs, feedback loops, bottlenecks. Quando olha para a economia, vê cadeias de valor, dependências, pontos de falha. Um advogado vê artigos de lei e regulamentos. A economia é um sistema complexo, não um código legal.

Empresários conhecem a realidade

Um empresário sabe quanto custa contratar, quanto paga de impostos reais, como funciona a burocracia do dia-a-dia, e o que realmente impede o crescimento. Não teoriza - vive. As suas opiniões são informadas pela experiência directa, não por interpretações de legislação.

Técnicos sabem ler dados

Um economista ou estatístico sabe distinguir correlação de causalidade, compreende intervalos de confiança, sabe o que é uma regressão e quando um número é estatisticamente significativo. Não confunde uma anedota com evidência. Não extrapola a partir de um único caso.

O que fazem os países que crescem

Nos países que mais crescem e inovam, o debate público sobre economia e competitividade é liderado por perfis técnicos, não por juristas:

Irlanda

O boom tecnológico foi liderado por engenheiros e economistas no IDA. Carga fiscal: 22.7%

Estónia

A transformação digital foi desenhada por engenheiros informáticos, não advogados. e-Residency, X-Road - tudo técnico.

Singapura

O EDB (Economic Development Board) é liderado por engenheiros e gestores com MBA. Zero juristas.

Israel

A "Startup Nation" foi construída por militares engenheiros da Unidade 8200, não por advogados.

Em Portugal, o debate é dominado por juristas. O resultado: uma economia que cresce abaixo do potencial, uma carga fiscal de 35.8% do PIB (acima da média OCDE), e um Estado que regula mais do que inova.

O que propomos

1.

Painéis televisivos sobre economia devem incluir obrigatoriamente economistas, engenheiros ou empresários - não apenas advogados e políticos.

2.

Decisões de política económica e industrial devem ser informadas por dados, não por interpretações jurídicas de conveniência.

3.

Portugal precisa de um conselho económico técnico, composto por engenheiros, cientistas de dados, economistas e empresários - à semelhança do que existe na Irlanda, Estónia e Singapura.

4.

A literacia de dados deve ser ensinada em todos os cursos superiores, incluindo Direito. Um jurista que comenta economia deve, no mínimo, saber ler um gráfico com rigor.

Conclusão

Os advogados são essenciais para o Estado de Direito. Mas confundir capacidade retórica com competência analítica é um erro que Portugal paga caro. Quando um jurista com zero formação em estatística comenta a inflação com a mesma confiança com que interpreta um artigo do Código Civil, o público é induzido em erro.

Portugal precisa de mais vozes técnicas no debate público: engenheiros que pensam em sistemas, economistas que sabem ler dados, empresários que conhecem a realidade. O futuro do país não se resolve com retórica - resolve-se com dados, engenharia e acção.

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