Os impostos dos portugueses baixaram? A verdade por trás da inflação e do PIB per capita
Ignorando o IRS Jovem, analisámos os dados reais: inflação acumulada, bracket creep fiscal, carga tributária em percentagem do PIB, e o efeito da imigração no PIB per capita. Os números contam uma história diferente da narrativa oficial.
~15%
Inflação acumulada
2021-2025
35.8%
Carga fiscal / PIB
Acima OCDE
1.55M
Estrangeiros
2024 (AIMA)
~0%
PIB per capita real
Crescimento real
A pergunta que ninguém faz
Todos os anos o governo anuncia "alívios fiscais", "reduções de IRS" e "devolução de rendimento". Mas há uma pergunta simples que raramente é feita: ajustando à inflação real e ignorando medidas seletivas como o IRS Jovem (que só beneficia uma faixa etária específica), os portugueses estão realmente a pagar menos impostos?
A resposta curta: não. Na prática, os impostos subiram. E quando combinamos isto com os dados da imigração da AIMA, o quadro do PIB per capita é ainda mais preocupante.
A inflação acumulada: o imposto invisível
Entre 2021 e 2025, a inflação acumulada em Portugal atingiu aproximadamente 14-15%:
| Ano | Inflação | Acumulado |
|---|---|---|
| 2021 | 2.4% | 2.4% |
| 2022 | 4.3% (pico) | 6.8% |
| 2023 | 2.4% | 9.4% |
| 2024 | 2.4% | 12.0% |
| 2025 | ~2.3% | ~14.6% |
Isto significa que alguém que ganhava 1.000 EUR em 2021 precisaria de ganhar ~1.150 EUR em 2025 só para manter o mesmo poder de compra. Mas os escalões de IRS foram atualizados muito abaixo deste valor.
Fontes: INE, Banco de Portugal, Eurostat
Bracket creep: o aumento silencioso de impostos
O que é o bracket creep?
Quando os salários sobem nominalmente para acompanhar a inflação, os trabalhadores são empurrados para escalões de IRS mais altos. Pagam mais imposto sem qualquer ganho real de poder de compra. É um aumento automático e silencioso de impostos.
Os escalões de IRS só foram atualizados em 3.51% para 2026 (baseado no deflator do PIB). Compare-se com a inflação acumulada de ~15%. O desfasamento é enorme.
~15%
Inflação acumulada
2021-2025
3.51%
Atualização escalões IRS
2026
Resultado: um português que viu o salário subir de 1.200 para 1.350 EUR (acompanhando a inflação) pode ter mudado de escalão de IRS, pagando uma taxa marginal mais alta por um rendimento real idêntico. O Estado arrecada mais, o trabalhador não ganha nada em termos reais.
Carga fiscal: recorde apos recorde
A carga fiscal em Portugal manteve-se em 35.7-35.8% do PIB em 2023-2024, acima da média da OCDE (33.9%). Apesar de todas as "reduções" anunciadas, a receita fiscal do Estado continuou a subir porque a inflação fez o trabalho de aumentar impostos silenciosamente.
Portugal 2024
35.8%
Média OCDE
33.9%
Irlanda
22.7%
Suíça
27.6%
Fonte: OCDE Revenue Statistics 2024
Ou seja: o português médio está a pagar mais impostos em termos reais. As "reduções" anunciadas nem sequer compensam o bracket creep causado pela inflação. O bolo fiscal cresce todos os anos.
PARTE 2: IMIGRAÇÃO E PIB
1.55 milhões de estrangeiros: o que dizem os números da AIMA
Segundo os dados da AIMA, Portugal tinha 1.55 milhões de estrangeiros residentes em dezembro de 2024, com a população total a atingir 10.69 milhões. O crescimento populacional de +1.1% em 2024 foi quase inteiramente impulsionado pela imigração, já que o saldo natural (nascimentos menos óbitos) continua negativo.
10.69M
População total
2024
1.55M
Estrangeiros
14.5%
+1.1%
Cresc. populacional
Via imigração
PIB per capita: o bolo cresce, as fatias encolhem
A matemática é simples:
PIB per capita = PIB total / População
+2.3%
Cresc. PIB Nominal
-2.4%
Inflação
-1.1%
Cresc. população
Resultado real:
~0% a -1.2% crescimento real per capita
O PIB nominal de Portugal cresce ~2.3%, mas ajustando a inflação (~2.4%) o crescimento real é próximo de zero. Dividindo por uma população que cresce +1.1% (via imigração), o PIB per capita real está praticamente estagnado, ou mesmo em ligeira queda.
Mais critico: a imigracao concentra-se em setores de baixos salarios (hotelaria, construcao, agricultura), puxando a mediana salarial para baixo mesmo que o PIB agregado suba. O portugues mediano nao esta mais rico - o bolo cresce, mas e dividido por mais pessoas, e a fatia de cada um encolhe em termos reais.
Conclusao: os numeros nao mentem
O portugues medio esta a pagar mais impostos em termos reais (bracket creep + inflacao nao compensada) e o PIB per capita real esta estagnado quando ajustado pela imigracao e inflacao.
Os numeros agregados mascaram a realidade individual. Quando o governo apresenta crescimento do PIB e "reducoes fiscais", esta a contar uma meia-verdade que esconde a estagnacao real do rendimento dos portugueses.
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Fontes e referencias
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