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ANÁLISEECONOMIA8 de fevereiro de 202610 min de leitura

Os impostos dos portugueses baixaram? A verdade por trás da inflação e do PIB per capita

Ignorando o IRS Jovem, analisámos os dados reais: inflação acumulada, bracket creep fiscal, carga tributária em percentagem do PIB, e o efeito da imigração no PIB per capita. Os números contam uma história diferente da narrativa oficial.

Erosao do poder de compra em Portugal

~15%

Inflação acumulada

2021-2025

35.8%

Carga fiscal / PIB

Acima OCDE

1.55M

Estrangeiros

2024 (AIMA)

~0%

PIB per capita real

Crescimento real

A pergunta que ninguém faz

Todos os anos o governo anuncia "alívios fiscais", "reduções de IRS" e "devolução de rendimento". Mas há uma pergunta simples que raramente é feita: ajustando à inflação real e ignorando medidas seletivas como o IRS Jovem (que só beneficia uma faixa etária específica), os portugueses estão realmente a pagar menos impostos?

A resposta curta: não. Na prática, os impostos subiram. E quando combinamos isto com os dados da imigração da AIMA, o quadro do PIB per capita é ainda mais preocupante.

A inflação acumulada: o imposto invisível

Entre 2021 e 2025, a inflação acumulada em Portugal atingiu aproximadamente 14-15%:

AnoInflaçãoAcumulado
20212.4% 2.4%
20224.3% (pico)6.8%
20232.4% 9.4%
20242.4% 12.0%
2025~2.3% ~14.6%

Isto significa que alguém que ganhava 1.000 EUR em 2021 precisaria de ganhar ~1.150 EUR em 2025 só para manter o mesmo poder de compra. Mas os escalões de IRS foram atualizados muito abaixo deste valor.

Fontes: INE, Banco de Portugal, Eurostat

Bracket creep: o aumento silencioso de impostos

O que é o bracket creep?

Quando os salários sobem nominalmente para acompanhar a inflação, os trabalhadores são empurrados para escalões de IRS mais altos. Pagam mais imposto sem qualquer ganho real de poder de compra. É um aumento automático e silencioso de impostos.

Os escalões de IRS só foram atualizados em 3.51% para 2026 (baseado no deflator do PIB). Compare-se com a inflação acumulada de ~15%. O desfasamento é enorme.

~15%

Inflação acumulada

2021-2025

3.51%

Atualização escalões IRS

2026

Resultado: um português que viu o salário subir de 1.200 para 1.350 EUR (acompanhando a inflação) pode ter mudado de escalão de IRS, pagando uma taxa marginal mais alta por um rendimento real idêntico. O Estado arrecada mais, o trabalhador não ganha nada em termos reais.

Carga fiscal: recorde apos recorde

A carga fiscal em Portugal manteve-se em 35.7-35.8% do PIB em 2023-2024, acima da média da OCDE (33.9%). Apesar de todas as "reduções" anunciadas, a receita fiscal do Estado continuou a subir porque a inflação fez o trabalho de aumentar impostos silenciosamente.

Portugal 2024

35.8%

Média OCDE

33.9%

Irlanda

22.7%

Suíça

27.6%

Fonte: OCDE Revenue Statistics 2024

Ou seja: o português médio está a pagar mais impostos em termos reais. As "reduções" anunciadas nem sequer compensam o bracket creep causado pela inflação. O bolo fiscal cresce todos os anos.

PARTE 2: IMIGRAÇÃO E PIB

1.55 milhões de estrangeiros: o que dizem os números da AIMA

Segundo os dados da AIMA, Portugal tinha 1.55 milhões de estrangeiros residentes em dezembro de 2024, com a população total a atingir 10.69 milhões. O crescimento populacional de +1.1% em 2024 foi quase inteiramente impulsionado pela imigração, já que o saldo natural (nascimentos menos óbitos) continua negativo.

10.69M

População total

2024

1.55M

Estrangeiros

14.5%

+1.1%

Cresc. populacional

Via imigração

PIB per capita: o bolo cresce, as fatias encolhem

A matemática é simples:

PIB per capita = PIB total / População

+2.3%

Cresc. PIB Nominal

-2.4%

Inflação

-1.1%

Cresc. população

Resultado real:

~0% a -1.2% crescimento real per capita

O PIB nominal de Portugal cresce ~2.3%, mas ajustando a inflação (~2.4%) o crescimento real é próximo de zero. Dividindo por uma população que cresce +1.1% (via imigração), o PIB per capita real está praticamente estagnado, ou mesmo em ligeira queda.

Mais critico: a imigracao concentra-se em setores de baixos salarios (hotelaria, construcao, agricultura), puxando a mediana salarial para baixo mesmo que o PIB agregado suba. O portugues mediano nao esta mais rico - o bolo cresce, mas e dividido por mais pessoas, e a fatia de cada um encolhe em termos reais.

Conclusao: os numeros nao mentem

O portugues medio esta a pagar mais impostos em termos reais (bracket creep + inflacao nao compensada) e o PIB per capita real esta estagnado quando ajustado pela imigracao e inflacao.

Os numeros agregados mascaram a realidade individual. Quando o governo apresenta crescimento do PIB e "reducoes fiscais", esta a contar uma meia-verdade que esconde a estagnacao real do rendimento dos portugueses.

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Fontes e referencias

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