O problema: jornalismo que destrói em vez de construir
Imagine que é um jovem engenheiro português. Acabou de lançar uma startup de inteligência artificial no Porto. A empresa cresceu 300% no último ano, exporta para 12 países e criou 15 empregos qualificados. Liga a televisão: CMTV a transmitir um acidente em loop, SIC com uma novela sobre traição, TVI com um debate onde cinco comentadores gritam sobre política.
A sua história nunca será contada. E com ela, desaparecem os modelos que inspirariam milhares de outros jovens a ficarem em Portugal e a criarem valor.
O ecossistema invisível: números que a TV não mostra
Portugal tem um ecossistema empreendedor vibrante que cresce em silêncio. Os dados do Startup Portugal (2024) são claros:
ECOSSISTEMA STARTUP PORTUGAL 2024
Fonte: Startup Portugal, Entrepreneurial Ecosystem Report 2024
Quantas destas histórias viu nos noticiários? Provavelmente zero. Mas viu o mesmo acidente rodoviário repetido 47 vezes num só dia na CMTV.
O que a TV mostra vs. o que esconde
O QUE A TV MOSTRA (80%)
- - Crime em loop contínuo (CMTV: 4-6h/dia)
- - Acidentes rodoviários filmados de helicóptero
- - Novelas com violência doméstica como entretenimento
- - Debates com juristas que gritam sobre tudo
- - Reality shows e entretenimento vulgar
- - Escândalos políticos sem contexto ou solução
- - Catástrofes naturais em repetição infinita
- - "Especialistas" a comentar fora da sua área
O QUE A TV ESCONDE (>95%)
- + 4.719 startups a criar emprego qualificado
- + Empresários que exportam para dezenas de países
- + Investigação científica portuguesa de topo mundial
- + Engenheiros a resolver problemas complexos
- + Casos de sucesso na indústria e tecnologia
- + Soluções que funcionam noutros países
- + Dados económicos com contexto internacional
- + Histórias de resiliência e inovação
Jornalismo construtivo: a ciência por trás da mudança
O jornalismo construtivo não é jornalismo positivo ou propaganda. É uma abordagem rigorosa, validada por dezenas de estudos académicos, que complementa a identificação de problemas com a exploração de soluções. Foi formalizado pelo Constructive Institute (Dinamarca) e é hoje praticado por redações de referência em todo o mundo.
O QUE A INVESTIGAÇÃO PROVA
Constructive Institute, 2024
Notícias construtivas aumentam a confiança nos media, fomentam o diálogo público e empoderam os leitores a agir.
Solutions Journalism Network, 2025
Notícias focadas em soluções geram mais engagement sustentável do que notícias negativas, sem sacrificar rigor.
JMIR / Frontiers in Psychology, 2024
Exposição a notícias construtivas reduz sentimentos de desesperança e aumenta a eficácia coletiva percebida.
Nature Human Behaviour, 2023
O viés negativo nos media amplifica perceções distorcidas da realidade. Notícias negativas de alta excitação emocional são mais virais, mas menos informativas.
O custo real do jornalismo destrutivo
Quando a comunicação social portuguesa ignora sistematicamente o empreendedorismo, a inovação e os casos de sucesso, o impacto é mensurável:
Fuga de talento
53%dos jovens portugueses querem emigrar. Sem modelos visíveis de sucesso cá, a única narrativa é "lá fora é que é bom".
Menos investimento
14.olugar na Europa em capital investido em startups. Investidores internacionais leem as notícias — e veem crime, instabilidade e drama.
Menos empreendedores
2xmenos intenção empreendedora que a média europeia. Se nunca vês empreendedores na TV, não acreditas que é possível.
Imagem internacional
???Portugal é visto como país de turismo e sol, não de inovação. A comunicação social reforça este estereótipo todos os dias.
O contraste nórdico: como fazem os melhores
A Dinamarca criou o Constructive Institute em 2017, ligado à Universidade de Aarhus. Hoje, 84% dos jornalistas dinamarqueses conhecem o conceito e 61% praticam-no. O resultado?
| Indicador | Portugal | Dinamarca | Finlândia |
|---|---|---|---|
| Confiança nos media | 39% | 58% | 69% |
| TV por dia | 5h29m | 2h50m | 2h40m |
| Jornalismo construtivo | ~0% | 61% | 45% |
| Cobertura empreendedorismo | Rara | Frequente | Frequente |
| Intenção empreendedora | 6.2% | 9.1% | 10.3% |
| Felicidade (ranking) | 56.o | 2.o | 1.o |
O jornalismo não deve escolher entre informar e inspirar. Pode — e deve — fazer ambos. Mostrar problemas sem mostrar soluções é tão irresponsável como mostrar soluções sem reconhecer problemas.
— Ulrik Haagerup, fundador do Constructive Institute
5 propostas concretas para mudar
Bloco semanal de empreendedorismo nos noticiários
5 minutos por semana em horário nobre dedicados a startups, PMEs e inovação portuguesa. Custo: zero. Impacto: enorme.
Programa nacional "Empreendedor da Semana"
Na RTP, com mandato de serviço público. Perfis de 15 minutos de empresários reais — não celebridades, não políticos. Engenheiros, técnicos, agricultores inovadores.
Regulação da proporção notícias negativas/construtivas
A ERC deveria monitorizar e publicar a proporção de notícias negativas vs. construtivas por canal. Não censurar — transparentizar.
Formação em jornalismo construtivo nas universidades
Os cursos de jornalismo em Portugal não ensinam jornalismo de soluções. Dinamarca, Holanda e Alemanha já incluem no currículo. Portugal deveria seguir.
Fundo de apoio a jornalismo de investigação económica
Jornalismo económico de qualidade é caro. Criar um fundo público (via taxação da publicidade digital das big tech) para financiar reportagens sobre economia, inovação e empreendedorismo.
Uma nota final aos jornalistas
Este artigo não é contra o jornalismo. É a favor do melhor jornalismo. O jornalismo que investiga, que contextualiza, que compara com outros países, que mostra soluções ao lado dos problemas.
Portugal tem 4.719 startups, investigadores de topo mundial, engenheiros brilhantes, empresários que exportam tecnologia portuguesa para o mundo. Eles merecem 5 minutos no vosso noticiário. O país precisa de os ver. Os jovens precisam de acreditar que é possível criar valor cá.
Cada história de sucesso que não contam é um jovem que emigra, uma startup que não nasce, e um país que não acredita em si próprio.
ARTIGOS RELACIONADOS