A República dos Favores: corrupção tolerada, mérito ignorado e a mediocridade que nos governa
Portugal não tem um problema de corrupção pontual. Tem um sistema que premia a lealdade, castiga a competência e normaliza o favor. Os dados da contratação pública provam-no.
Dashboard Interativo
Explora os dados completos da contratação pública: 6 tabs, 298K contratos, top fornecedores, red flags e mapa por distrito
A Cultura do Favor
Em Portugal, a palavra "cunha" não é tabu — é estratégia. Desde a junta de freguesia ao ministério, o acesso a contratos, empregos e oportunidades passa menos pelo mérito e mais por quem se conhece. Não é um bug do sistema. É o sistema.
Os números da contratação pública são a prova material. Em 2024, 58% dos 298.400 contratos públicos foram atribuídos por ajuste direto — sem concurso, sem concorrência, sem escrutínio real. São 173.000 contratos onde alguém decidiu, sozinho, a quem dar o dinheiro dos contribuintes.
Como se atribuem contratos em Portugal
Portal Base 2024 — 298.400 contratos
Portugal vs Europa em transparência
Score de transparência (Transparency Int. / estimativas)
Portugal tem o 8.° pior score de transparência na contratação pública entre 10 países europeus analisados. 58% de ajuste direto contra 12% na Dinamarca. Não é atraso — é escolha política.
Recrutar por Cunha, Não por Mérito
O ajuste direto não é apenas um mecanismo de contratação — é uma filosofia de governação. Quando um presidente de câmara pode escolher, sem concurso, a quem dá 173.000 contratos por ano, está a construir uma rede de dependência. O fornecedor sabe que deve o contrato ao autarca, não à qualidade do seu trabalho. E o autarca sabe que pode contar com esse fornecedor na próxima campanha.
O resultado é previsível: as mesmas empresas ganham os mesmos contratos, ano após ano. As 10 maiores empresas captam 28,4% do valor total. As 20 maiores ficam com 34%. E muitas delas têm taxas de ajuste direto acima de 40% — o que significa que a maioria dos seus contratos com o Estado nunca passou por concurso.
Top 10 empresas
28.4%
do valor total
Top 50 empresas
42.6%
do valor total
Top 100 empresas
51.3%
do valor total
Top 500 empresas
68.7%
do valor total
Consultoras: a porta giratória do ajuste direto
% de contratos obtidos sem concurso — consultoras vs construtoras
A Altran obtém 58% dos seus contratos com o Estado por ajuste direto. A Deloitte, 55%. A Accenture, 52%. Estas são multinacionais com milhares de concorrentes qualificados. Se nem elas precisam de concorrer, o que sobra para as PMEs portuguesas?
As Bandeiras Vermelhas que Ninguém Vê
A nossa análise identificou 21,890 alertas de risco nos contratos públicos de 2024, totalizando 2074M€. Desde contratos fracionados para escapar ao limiar de concurso, a empresas criadas semanas antes de receberem adjudicações, passando por ligações familiares entre autarcas e fornecedores.
Ajuste Direto Recorrente
4,280
Mesma empresa recebe 5+ ajustes diretos da mesma entidade no mesmo ano
890M€
Valor Limite
12,400
Contratos divididos para ficar abaixo do limiar de ajuste direto (€20.000)
186M€
Empresa Recente
890
Empresa criada há menos de 1 ano recebe contratos públicos significativos
124M€
Morada Partilhada
2,340
Múltiplas empresas adjudicatárias partilham a mesma morada fiscal
456M€
Sócios Comuns
1,560
Empresas diferentes com sócios/gerentes comuns ganham contratos da mesma entidade
340M€
Ligação Familiar
420
NIF de adjudicatário ligado a familiar de titular de cargo político local
78M€
Casos documentados
Presidente adjudicou 12+ contratos a empresas da família (pai, sogro, tio da esposa)
Fonte: Público
Autarcas suspeitos de beneficiar empresas de familiares via contratos públicos
Fonte: ZAP/Público
Ajustes diretos repetidos a mesma empresa de consultoria sem justificação técnica
Fonte: Tribunal de Contas
Contratos fracionados para evitar concurso público - 47 contratos abaixo do limiar
Fonte: Tribunal de Contas
Empresas com morada fiscal comum ganharam contratos de obras e serviços
Fonte: DCIAP/Público
Contratos de IT a empresa criada 3 meses antes, com sócio ex-assessor do governo
Fonte: Observador/RTP
A Mediocridade como Sistema
Quando o critério de seleção é a lealdade e não a competência, o resultado é inevitável: mediocridade institucionalizada. Não é que Portugal não tenha talento — é que o sistema foi desenhado para o excluir. Os melhores ou emigram, ou adaptam-se. E adaptar-se, neste contexto, significa jogar o jogo dos favores.
O custo é invisível mas devastador. Estradas que se desfazem em 5 anos porque a construtora foi escolhida por proximidade, não por qualidade. Sistemas informáticos do Estado que custam milhões e não funcionam, porque a consultora foi contratada por ajuste direto. Hospitais sem médicos porque os concursos públicos são kafkianos, mas as nomeações políticas são instantâneas.
O Ciclo da Mediocridade
Ajuste direto
Sem concorrência, sem critérios objetivos
Fornecedor leal
Ganha quem conhece, não quem faz melhor
Resultado medíocre
Sem incentivo para excelência
Mais favores
O fornecedor retribui em campanha e apoios
Este ciclo explica porque é que Portugal tem a segunda menor produtividade da Europa Ocidental. Não é falta de trabalhadores esforçados — é que as decisões sobre quem executa, quem fornece e quem lidera são tomadas com base em redes de influência e não em competência.
E talvez o mais perverso: a tolerância social. A corrupção em Portugal não gera revolta — gera resignação. "É assim" tornou-se a frase mais destrutiva da democracia portuguesa. Porque quando aceitamos que "é assim", estamos a dizer que o mérito não interessa. E quando o mérito não interessa, os melhores vão-se embora.
Conclusão: O Que Tem de Mudar
Não precisamos de mais leis. Precisamos de dados abertos, cruzamentos automáticos e consequências reais. Se cruzarmos os NIFs dos adjudicatários com os registos comerciais e as declarações de interesses dos autarcas, os padrões saltam à vista. A tecnologia existe. A vontade política, não.
A Dinamarca tem 12% de ajuste direto. Portugal tem 58%. A diferença não é cultural — é política. Cada contrato sem concurso é uma decisão consciente de excluir a concorrência. Cada nomeação por cunha é uma decisão consciente de excluir o mérito. E cada vez que toleramos, somos cúmplices.
Portugal não precisa de um milagre económico. Precisa de meritocracia. De concursos transparentes. De dados abertos. E de cidadãos que se recusem a aceitar que "é assim". Porque não tem de ser.
Ajuste direto PT
58%
Ajuste direto DK
12%
Red flags 2024
21,890
Metodologia
Fontes de Dados
- •Portal Base - Contratos públicos 2016-2024 (base.gov.pt)
- •IMPIC - Relatório Anual da Contratação Pública 2023
- •Tribunal de Contas - Relatórios de Auditoria a Autarquias
- •Transparency International - Corruption Perceptions Index 2024
- •Público / Observador / RTP - Investigações jornalísticas sobre casos documentados
Calculos e Pressupostos
- •Os red flags foram identificados por cruzamento de NIFs, datas de constituição de empresas e moradas fiscais com dados do Portal Base
- •Os scores de transparência europeus combinam dados do Transparency International, Eurostat e análise dos portais nacionais de contratação
- •Os valores de concentração (Top X) são calculados a partir dos montantes acumulados dos maiores adjudicatários no Portal Base
Limitacoes
- •Os dados do Portal Base podem estar incompletos — nem todas as entidades reportam atempadamente
- •Os casos documentados baseiam-se em investigações jornalísticas públicas, não em condenações judiciais
- •Os cruzamentos de NIFs familiares são estimativas baseadas em informação pública — dados definitivos requerem acesso ao registo comercial completo