PTdata.org

Opinião / Análise25 Fev 2026

A República dos Favores: corrupção tolerada, mérito ignorado e a mediocridade que nos governa

Portugal não tem um problema de corrupção pontual. Tem um sistema que premia a lealdade, castiga a competência e normaliza o favor. Os dados da contratação pública provam-no.

Dashboard Interativo

Explora os dados completos da contratação pública: 6 tabs, 298K contratos, top fornecedores, red flags e mapa por distrito

A Cultura do Favor

Em Portugal, a palavra "cunha" não é tabu — é estratégia. Desde a junta de freguesia ao ministério, o acesso a contratos, empregos e oportunidades passa menos pelo mérito e mais por quem se conhece. Não é um bug do sistema. É o sistema.

Os números da contratação pública são a prova material. Em 2024, 58% dos 298.400 contratos públicos foram atribuídos por ajuste direto — sem concurso, sem concorrência, sem escrutínio real. São 173.000 contratos onde alguém decidiu, sozinho, a quem dar o dinheiro dos contribuintes.

Como se atribuem contratos em Portugal

Portal Base 2024 — 298.400 contratos

Ajuste Direto 58%
Consulta Prévia 15%
Concurso Público 17%
Concurso Limitado 4%
Acordo-Quadro 3%
Outros 3%

Portugal vs Europa em transparência

Score de transparência (Transparency Int. / estimativas)

Portugal tem o 8.° pior score de transparência na contratação pública entre 10 países europeus analisados. 58% de ajuste direto contra 12% na Dinamarca. Não é atraso — é escolha política.

Recrutar por Cunha, Não por Mérito

O ajuste direto não é apenas um mecanismo de contratação — é uma filosofia de governação. Quando um presidente de câmara pode escolher, sem concurso, a quem dá 173.000 contratos por ano, está a construir uma rede de dependência. O fornecedor sabe que deve o contrato ao autarca, não à qualidade do seu trabalho. E o autarca sabe que pode contar com esse fornecedor na próxima campanha.

O resultado é previsível: as mesmas empresas ganham os mesmos contratos, ano após ano. As 10 maiores empresas captam 28,4% do valor total. As 20 maiores ficam com 34%. E muitas delas têm taxas de ajuste direto acima de 40% — o que significa que a maioria dos seus contratos com o Estado nunca passou por concurso.

Top 10 empresas

28.4%

do valor total

Top 50 empresas

42.6%

do valor total

Top 100 empresas

51.3%

do valor total

Top 500 empresas

68.7%

do valor total

Consultoras: a porta giratória do ajuste direto

% de contratos obtidos sem concurso — consultoras vs construtoras

Consultoria Tecnologia Construção

A Altran obtém 58% dos seus contratos com o Estado por ajuste direto. A Deloitte, 55%. A Accenture, 52%. Estas são multinacionais com milhares de concorrentes qualificados. Se nem elas precisam de concorrer, o que sobra para as PMEs portuguesas?

As Bandeiras Vermelhas que Ninguém Vê

A nossa análise identificou 21,890 alertas de risco nos contratos públicos de 2024, totalizando 2074M€. Desde contratos fracionados para escapar ao limiar de concurso, a empresas criadas semanas antes de receberem adjudicações, passando por ligações familiares entre autarcas e fornecedores.

Ajuste Direto Recorrente

4,280

Mesma empresa recebe 5+ ajustes diretos da mesma entidade no mesmo ano

890M€

Valor Limite

12,400

Contratos divididos para ficar abaixo do limiar de ajuste direto (€20.000)

186M€

Empresa Recente

890

Empresa criada há menos de 1 ano recebe contratos públicos significativos

124M€

Morada Partilhada

2,340

Múltiplas empresas adjudicatárias partilham a mesma morada fiscal

456M€

Sócios Comuns

1,560

Empresas diferentes com sócios/gerentes comuns ganham contratos da mesma entidade

340M€

Ligação Familiar

420

NIF de adjudicatário ligado a familiar de titular de cargo político local

78M€

Casos documentados

Castelo Branco2018
2.4M€

Presidente adjudicou 12+ contratos a empresas da família (pai, sogro, tio da esposa)

Fonte: Público

Felgueiras2023
1.8M€

Autarcas suspeitos de beneficiar empresas de familiares via contratos públicos

Fonte: ZAP/Público

Paços de Ferreira2022
3.2M€

Ajustes diretos repetidos a mesma empresa de consultoria sem justificação técnica

Fonte: Tribunal de Contas

Vila Nova de Gaia2021
0.9M€

Contratos fracionados para evitar concurso público - 47 contratos abaixo do limiar

Fonte: Tribunal de Contas

Câmara de Gondomar2020
4.1M€

Empresas com morada fiscal comum ganharam contratos de obras e serviços

Fonte: DCIAP/Público

Governo Regional Madeira2023
5.6M€

Contratos de IT a empresa criada 3 meses antes, com sócio ex-assessor do governo

Fonte: Observador/RTP

A Mediocridade como Sistema

Quando o critério de seleção é a lealdade e não a competência, o resultado é inevitável: mediocridade institucionalizada. Não é que Portugal não tenha talento — é que o sistema foi desenhado para o excluir. Os melhores ou emigram, ou adaptam-se. E adaptar-se, neste contexto, significa jogar o jogo dos favores.

O custo é invisível mas devastador. Estradas que se desfazem em 5 anos porque a construtora foi escolhida por proximidade, não por qualidade. Sistemas informáticos do Estado que custam milhões e não funcionam, porque a consultora foi contratada por ajuste direto. Hospitais sem médicos porque os concursos públicos são kafkianos, mas as nomeações políticas são instantâneas.

O Ciclo da Mediocridade

1

Ajuste direto

Sem concorrência, sem critérios objetivos

2

Fornecedor leal

Ganha quem conhece, não quem faz melhor

3

Resultado medíocre

Sem incentivo para excelência

4

Mais favores

O fornecedor retribui em campanha e apoios

Este ciclo explica porque é que Portugal tem a segunda menor produtividade da Europa Ocidental. Não é falta de trabalhadores esforçados — é que as decisões sobre quem executa, quem fornece e quem lidera são tomadas com base em redes de influência e não em competência.

E talvez o mais perverso: a tolerância social. A corrupção em Portugal não gera revolta — gera resignação. "É assim" tornou-se a frase mais destrutiva da democracia portuguesa. Porque quando aceitamos que "é assim", estamos a dizer que o mérito não interessa. E quando o mérito não interessa, os melhores vão-se embora.

Conclusão: O Que Tem de Mudar

Não precisamos de mais leis. Precisamos de dados abertos, cruzamentos automáticos e consequências reais. Se cruzarmos os NIFs dos adjudicatários com os registos comerciais e as declarações de interesses dos autarcas, os padrões saltam à vista. A tecnologia existe. A vontade política, não.

A Dinamarca tem 12% de ajuste direto. Portugal tem 58%. A diferença não é cultural — é política. Cada contrato sem concurso é uma decisão consciente de excluir a concorrência. Cada nomeação por cunha é uma decisão consciente de excluir o mérito. E cada vez que toleramos, somos cúmplices.

Portugal não precisa de um milagre económico. Precisa de meritocracia. De concursos transparentes. De dados abertos. E de cidadãos que se recusem a aceitar que "é assim". Porque não tem de ser.

Ajuste direto PT

58%

Ajuste direto DK

12%

Red flags 2024

21,890

Metodologia

Fontes de Dados

  • Portal Base - Contratos públicos 2016-2024 (base.gov.pt)
  • IMPIC - Relatório Anual da Contratação Pública 2023
  • Tribunal de Contas - Relatórios de Auditoria a Autarquias
  • Transparency International - Corruption Perceptions Index 2024
  • Público / Observador / RTP - Investigações jornalísticas sobre casos documentados

Calculos e Pressupostos

  • Os red flags foram identificados por cruzamento de NIFs, datas de constituição de empresas e moradas fiscais com dados do Portal Base
  • Os scores de transparência europeus combinam dados do Transparency International, Eurostat e análise dos portais nacionais de contratação
  • Os valores de concentração (Top X) são calculados a partir dos montantes acumulados dos maiores adjudicatários no Portal Base

Limitacoes

  • Os dados do Portal Base podem estar incompletos — nem todas as entidades reportam atempadamente
  • Os casos documentados baseiam-se em investigações jornalísticas públicas, não em condenações judiciais
  • Os cruzamentos de NIFs familiares são estimativas baseadas em informação pública — dados definitivos requerem acesso ao registo comercial completo