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Análise

O Peso Fiscal dos Poucos: quem realmente sustenta o Estado

Em Portugal, 5% dos contribuintes pagam quase 40% de toda a receita do IRS. Os restantes 50% mais pobres contribuem apenas 6,5%. Esta concentração extrema tem consequências profundas na economia, na motivação para trabalhar e na fuga de talento.

5%
pagam 40% do IRS
48%
taxa marginal maxima
30%
jovens emigrados

A Concentração: poucos pagam por muitos

Dos 10,3 milhões de residentes em Portugal, apenas 3,4 milhões efetivamente pagam IRS. Destes, a distribuição é dramaticamente desigual: o 1% com maiores rendimentos paga quase 1 em cada 5 euros de receita, e os 10% do topo pagam mais de metade de toda a coleta.

Isto significa que um grupo reduzido de contribuintes — muitos deles classe média-alta, não necessariamente ricos — sustenta a grande maioria dos serviços públicos. Enquanto isso, mais de metade dos agregados familiares contribui apenas 6,5% da receita total.

Quem paga quanto

Concentração da receita do IRS por grupo

Top 1%19.1% da receita
Top 5%39.6% da receita
Top 10%55.3% da receita
Top 20%72.1% da receita
Top 50%93.5% da receita
Bottom 50%6,5% da receita

Contribuintes vs Receita

Distribuição por escalão de IRS

O paradoxo da base estreita

Quando a receita fiscal depende de tão poucos contribuintes, qualquer choque económico — recessão, vaga de emigração ou reforma antecipada — tem um impacto desproporcionado nas contas públicas. Uma base tributária estreita é, por definição, frágil.

A Armadilha da Taxa Marginal

Um trabalhador que ganha 2.000€ brutos por mês já enfrenta uma taxa marginal de IRS de 35-37%. Isto significa que por cada euro extra que ganha, mais de um terço vai diretamente para o Estado. Para quem ganha 3.000€, a taxa marginal chega a 37%. E a partir de 3.750€ mensais — um salário perfeitamente normal em muitos países europeus — a taxa salta para 43,5%.

O impacto psicológico e económico é devastador. Um profissional qualificado que negoceia um aumento de 500€ brutos pode ver menos de 250€ no seu bolso — depois de IRS e Segurança Social. A motivação para trabalhar mais horas, aceitar promoções ou investir em formação diminui radicalmente.

A Escada Fiscal

Taxa marginal por salário bruto mensal

Taxa marginal
Taxa efetiva

O que acontece a 2.500€ brutos

Solteiro, sem dependentes (custo total empregador: 3.094€)

SS Trabalhador 275
SS Empregador 594
IRS retido 412
Líquido 1813

De cada 3.094€ que o empregador paga, o trabalhador recebe apenas 1.813€ (58,6%). O Estado fica com 1.281€ (41,4%) entre IRS e SS.

Comparação reveladora

Um programador sénior em Lisboa ganha ~3.000€ brutos e leva ~1.900€ para casa. O mesmo programador em Dublin ganha ~5.500€ e leva ~4.100€. Não é só o salário que é diferente — é a percentagem que o Estado leva. Em Portugal, a taxa marginal a 3.000€ é de 37%. Na Irlanda, seria 20%.

A Fuga de Talento

30% dos jovens nascidos em Portugal vivem no estrangeiro — muito acima da média da OCDE. A combinação de salários baixos com impostos altos cria uma pressão irresistível para emigrar. E não são os trabalhadores menos qualificados que partem: são médicos, engenheiros, programadores, investigadores.

O Estado investiu na formação destes profissionais — universidade pública, bolsas, SNS — e depois cria condições fiscais que os empurram para o estrangeiro. É um círculo vicioso: menos contribuintes qualificados significam menos receita, que obriga a aumentar impostos sobre os que ficam, que incentiva ainda mais emigração.

Emigração portuguesa

Milhares de emigrantes por ano (INE / Observatório da Emigração)

Total emigrantes
Com ensino superior

Tax Wedge OCDE 2024

Carga fiscal total sobre o trabalho (% do custo salarial)

O custo real da emigração

Cada médico que emigra representa ~500.000€ de investimento público em formação perdido. Um engenheiro, ~250.000€. Se 30.000 qualificados emigram por ano, o custo anual para o Estado português ultrapassa os 5 mil milhões de euros — mais do que o orçamento inteiro do SNS em despesas com pessoal.

O Círculo Vicioso

A concentração fiscal extrema cria um ciclo que se auto-reforça:

1

Impostos altos

Taxa marginal de 37-48% a partir de salários modestos

2

Emigração

Profissionais qualificados partem para países com menor carga fiscal

3

Base estreita

Menos contribuintes de alta receita, menos coleta total

4

Mais impostos

Para compensar, o Estado aumenta taxas sobre quem fica

1,9M
Agregados isentos de IRS
36% das declarações
3,4M
Efetivamente pagam IRS
33% da população
€15.300
PIB per capita
60% da média da UE
39,4%
Tax wedge Portugal
Acima da media OCDE

O Paradoxo do Estado Empregador

Portugal tem 754 mil funcionários públicos (DGAEP, Dezembro 2024), representando 14,7% do emprego total. Estimamos que contribuam cerca de 16% da receita de IRS — uma proporção ligeiramente superior ao seu peso no emprego, dado o salário médio mais elevado no setor público (1.850€ vs 1.450€ no privado).

Mas aqui reside um paradoxo fundamental: o Estado paga salários com receita fiscal e depois cobra IRS sobre esses mesmos salários. Em termos líquidos, o custo real de um funcionário público para o Estado é o salário menos o IRS retido. É um circuito fechado que inflaciona artificialmente tanto a despesa como a receita pública.

Total Func. Públicos

754K

DGAEP Dez 2024

% do Emprego

14,7%

de 5,1M empregados

Pagam IRS

~580K

84% com coleta > 0

Salário Médio

1.850€

bruto mensal

Composição por Nível de Governo

754K funcionários (DGAEP Dez 2024)

Governo Central 75.2%
Governo Local 17.7%
Governo Regional 5.6%
Fundos Seg. Social 1.5%

Setores do Governo Central

567K funcionários no governo central

Público vs Privado vs Independentes

Func. Publicos754K
14.7% emprego16% IRS1,850€/mês
14.7%
16%
Setor Privado3,560K
69.7% emprego56.3% IRS1,450€/mês
69.7%
56.3%
Independentes798K
15.6% emprego5.8% IRS1,200€/mês
15.6%
5.8%
% Emprego % Receita IRS

O circuito fechado

O Estado gasta ~18 mil milhões€/ano em salários (Educação, Saúde, Segurança). Destes, cobra ~2,9 mil milhões€ em IRS de volta. O custo real líquido é ~15,1 mil milhões€. Mas nos relatórios oficiais, tanto a despesa (18B) como a receita (2,9B) aparecem como valores totais — inflacionando artificialmente ambos os lados do orçamento.

Conclusão: o problema não é quem paga — é quem não consegue pagar mais

A questão não é defender que os mais ricos paguem menos. É reconhecer que quando um país depende de tão poucos para financiar tudo, o sistema é estruturalmente frágil. A progressividade excessiva não redistribui riqueza — redistribui pessoas. Os mais qualificados emigram, os que ficam são sobrecarregados, e a economia estagna.

A solução passa por alargar a base tributária — não por aumentar taxas, mas por criar condições para que mais portugueses ganhem mais. Salários mais altos geram mais receita fiscal mesmo com taxas mais baixas. É o princípio da curva de Laffer: há um ponto a partir do qual aumentar impostos reduz a receita, porque as pessoas ajustam o seu comportamento.

Portugal precisa de uma reforma fiscal que torne o trabalho mais atrativo, que reduza as taxas marginais nos escalões intermédios, e que crie incentivos para os jovens qualificados ficarem. E precisa de reconhecer o paradoxo de um Estado que é simultaneamente o maior empregador e o maior cobrador de impostos — um circuito fechado que inflaciona artificialmente as contas públicas. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a depender dos poucos que não emigram para sustentar um Estado para muitos.

Metodologia

Fontes de Dados

  • AT - Autoridade Tributária e Aduaneira — Estatísticas IRS 2021-2023
  • GPEARI - Dashboard de Desigualdades de Rendimento e IRS (2021)
  • OCDE - Taxing Wages 2025 — Portugal Country Note
  • INE - Observatório da Emigração — Emigração Portuguesa
  • DGAEP - Emprego nas Administrações Públicas Q4 2024
  • Eurostat - Taxation trends in the European Union 2024

Calculos e Pressupostos

  • Os valores de tax wedge são dados oficiais OCDE 2024 para trabalhador solteiro sem dependentes com salário médio
  • A decomposição salarial de 2.500€ brutos utiliza as tabelas de retenção na fonte de IRS 2024 e taxas contributivas em vigor

Limitacoes

  • Os dados de concentração (Top X%) baseiam-se em estimativas do GPEARI 2021 com extrapolações para 2024
  • Os números de emigração qualificada são estimativas baseadas no Observatório da Emigração e OCDE
  • Os valores de contribuição IRS dos funcionários públicos são estimativas baseadas na distribuição salarial da DGAEP e tabelas de retenção AT. Dados definitivos por empregador não são publicados.
Ultima atualizacao dos dados2025-06