22,50
euros por factura de papel
18h
por semana perdidas
1,3B
euros/ano desperdicados
O problema escondido a vista de todos
Em 2025, Portugal processou 5,9 milhoes de facturas. Quase metade ainda circula em papel. Cada uma dessas facturas de papel percorre um caminho absurdo: e impressa, colocada num envelope, enviada pelo correio, recebida, aberta, lida, inserida manualmente num sistema, arquivada fisicamente, e armazenada durante anos. Este processo custa, em media, 22,50 euros por factura.
Uma factura digital custa 3,20 euros. A diferenca de 19,30 euros por factura multiplicada por milhoes de documentos traduz-se num desperdicio anual que ultrapassa mil milhoes de euros. Dinheiro que podia estar a financiar inovação, contratar talento, ou simplesmente a melhorar margens de empresas que lutam para sobreviver.
Factura de Papel
Factura Digital
72 mil contabilistas presos ao papel
Portugal tem cerca de 72 mil contabilistas certificados. Em media, cada um gasta 18 horas por semana -- quase metade do horario de trabalho -- a lidar com facturas. Nao a analisar dados, nao a aconselhar clientes, nao a planear estratégia fiscal. A pedir facturas em falta, a inserir numeros manualmente, a corrigir erros de digitação, e a arquivar papel.
A tarefa que mais tempo consome? Pedir facturas em falta aos clientes. Sao 5,5 horas por semana -- quase um dia inteiro -- gastas a enviar emails, a telefonar, a insistir. E um trabalho que simplesmente nao existiria se a facturacao fosse 100% digital.
Onde vai o tempo de um contabilista (por semana)
15,2h das 18h semanais sao trabalho evitável com digitalização (84%)
Isto significa que 84% do tempo que um contabilista gasta com facturas e trabalho que podia ser eliminado. 15,2 horas por semana por contabilista. Multiplicado por 72 mil profissionais, sao 56,8 milhoes de horas por ano. Horas que podiam ser investidas em trabalho com valor: consultoria fiscal, planeamento financeiro, análise de dados.
O impacto na economia: mil milhoes invisíveis
Portugal tem cerca de 50 mil PMEs. A maioria ainda opera com processos hibridos -- algumas facturas digitais, muitas em papel. A adoção completa da e-Fatura esta abaixo de 50%. Numa economia onde a produtividade e cronicamente baixa (65% da media europeia), continuar a gastar recursos em papel e um luxo que o pais nao pode pagar.
A Italia, que implementou facturação electrónica obrigatoria em 2019, viu uma redução de 30% nos custos administrativos e um aumento significativo na receita fiscal por redução da evasão. A Estónia, com o seu ecossistema digital, processa 99% das facturas electronicamente. Portugal esta atrasado -- e cada ano de atraso custa.
Adoção de facturação digital na Europa
A solução ja existe: chama-se e-Fatura
O sistema e-Fatura existe desde 2013. A Autoridade Tributaria ja recebe facturas electronicamente. O problema nao e tecnológico -- e de adoção. Enquanto a emissao de facturas electronicas for opcional para a maioria das empresas, o papel vai continuar a dominar. A solução e simples: tornar a facturação electrónica obrigatoria, com um periodo de transição razoavel e apoio tecnico para PMEs.
Custo por factura
Tempo de processamento
Taxa de erros
Impacto ambiental
O que precisa de acontecer
A directiva europeia de facturação electrónica (2014/55/UE) ja obriga a facturação digital em contratos publicos. Mas o sector privado continua largamente em papel. Para mudar isto, sao precisas tres coisas:
Obrigatoriedade faseada
Tornar a facturação electrónica obrigatoria: primeiro para grandes empresas (2027), depois para PMEs (2028), e finalmente para microempresas (2029). Com apoio tecnico gratuito e programas de formação.
Interoperabilidade total
Garantir que todos os softwares de facturacao certificados pela AT comunicam entre si. O formato CIUS-PT (baseado no UBL europeu) deve ser o padrão único, eliminando incompatibilidades.
Incentivos fiscais reais
Dedução fiscal para empresas que adoptem 100% facturação digital. Redução da taxa de IRC em 0,5% para empresas totalmente digitais. O custo do incentivo e inferior a poupança economica gerada.
Conclusão: o papel e um imposto invisível
Cada factura de papel e um imposto invisível sobre a economia. Nao aparece no orcamento do Estado, nao e debatido no Parlamento, mas custa mais de mil milhoes de euros por ano a empresas e contribuintes. E um custo que recai desproporcionalmente sobre as PMEs -- as empresas que menos recursos tem para o absorver.
A tecnologia existe. O sistema legal existe. A directiva europeia existe. O que falta e vontade politica e um prazo concreto. Enquanto a facturação electrónica for opcional, Portugal vai continuar a desperdicar horas, papel e dinheiro num processo do seculo XX.
Não é uma questão de se. E uma questão de quando. E cada dia de atraso custa dinheiro.
FONTES
Portal e-Fatura, Autoridade Tributaria (2025)
Directiva 2014/55/UE sobre facturação electrónica
Ordem dos Contabilistas Certificados (2024)
Billentis - E-Invoicing Market Report (2024)
Sage - Estado da Contabilidade em Portugal (2024)
Eurostat - Indicadores de digitalização empresarial (2024)