6.1%
taxa de desemprego actual
€6.2B
custo anual para a economia
21.2%
desemprego jovem (15-24)
Os números por detrás dos números
Quando dizemos que a taxa de desemprego é de 6.1%, parece quase aceitável. A média da União Europeia é de 5.9% — estamos perto. Mas esta estatística esconde mais do que revela.
Primeiro, o desemprego jovem. Um em cada cinco portugueses entre os 15 e os 24 anos que procura trabalho não encontra. São 21.2% — mais do triplo da taxa nacional. Estes não são números de uma crise passageira. São números estruturais que se repetem há mais de uma década, condenando uma geração inteira a começar a vida adulta com atraso, sem autonomia e sem perspectiva.
Segundo, os números oficiais não contam os desistentes — pessoas que deixaram de procurar porque perderam a esperança. Não contam quem trabalha duas horas por semana num biscate. Não contam o imigrante com mestrado que limpa escritórios porque o seu diploma leva 18 meses a ser reconhecido. Se contássemos todos estes, a taxa real ultrapassaria os 10%.
DISPARIDADES REGIONAIS
7.8%
Algarve
7.2%
Lisboa Metro
4.8%
Centro
6.8%
Açores
O Algarve, dependente do turismo sazonal, tem a taxa mais alta. O Centro, com tecido industrial diversificado, tem a mais baixa.
O custo de que ninguém fala
Quando pensamos no custo do desemprego, pensamos nos subsídios. Mil quatrocentos e vinte milhões de euros por ano pagos a 182 mil beneficiários, com um valor médio de 562 euros por mês durante 8.4 meses. É muito dinheiro. Mas é apenas a ponta do icebergue.
O maior custo é invisível: a produção que não acontece. Cada pessoa desempregada é uma pessoa que não está a produzir, a consumir, a contribuir. O Banco de Portugal estima esta perda em 3.8 mil milhões de euros por ano — o equivalente a construir um novo aeroporto de Lisboa todos os anos e deitá-lo fora.
DECOMPOSIÇÃO DOS CUSTOS ANUAIS
O custo humano
Os números económicos são brutais, mas o custo humano é devastador. O desemprego não retira apenas rendimento — retira identidade, propósito e saúde.
Um desempregado de longa duração tem 2.3 vezes mais probabilidade de desenvolver depressão. Trinta e nove por cento reportam isolamento social. A cada mês sem trabalho, a empregabilidade cai 2% — cria-se um círculo vicioso em que quanto mais tempo se está desempregado, mais difícil é voltar. Depois de 12 meses, o salário a que se consegue aceder é, em média, 15% inferior ao anterior. O desemprego não é uma pausa — é uma cicatriz permanente na trajectória profissional.
Saúde Mental
2.3x
mais risco de depressão. 480 milhões por ano em tratamentos. O desemprego é um problema de saúde pública que não tratamos como tal.
Isolamento Social
39%
dos desempregados de longa duração reportam isolamento. Correlação directa com instabilidade familiar, divórcio e, nos casos mais graves, violência doméstica.
Cicatriz Salarial
-15%
de perda salarial permanente após 12 meses desempregado. As competências degradam-se, a confiança erode-se, o CV ganha um buraco que os recrutadores penalizam.
A geração suspensa
Portugal tem 105 mil jovens NEET — nem empregados, nem em educação, nem em formação. Cada um custa ao país 18.200 euros por ano em subsídios, serviços sociais e produção perdida. No total: 1.9 mil milhões de euros por ano. É o equivalente ao orçamento anual de uma cidade como Coimbra.
Mas o custo mais grave é o que não se mede: a emigração. Milhares de jovens qualificados que Portugal formou — com investimento público em educação — saem para trabalhar noutros países. Formamos engenheiros a 100 mil euros cada e exportamo-los a custo zero para a Alemanha, Holanda e Reino Unido. Cada jovem qualificado que emigra é um investimento público que gera retorno noutro país.
JOVENS NEET EM PORTUGAL
9.8%
taxa NEET
105K
jovens NEET
€18.2K
custo/jovem/ano
€1.9B
custo total/ano
O paradoxo da imigração
Portugal tem simultaneamente 330 mil desempregados e milhares de vagas por preencher. A construção não encontra serventes. A agricultura não encontra quem colha. A hotelaria não encontra quem limpe. São trabalhos que os portugueses, na sua maioria, não querem fazer — e são os imigrantes que os fazem.
Mas há um custo oculto nesta equação. A taxa de desemprego dos imigrantes é de 8.9% — quase o dobro dos 5.4% dos nacionais. Sessenta e dois por cento trabalham abaixo das suas qualificações: médicos a limpar, engenheiros em obras, professores a servir cafés. Recebem em média 78% do salário de um português na mesma função. Um diploma estrangeiro demora 18 meses a ser reconhecido — 18 meses de talento desperdiçado e de contribuição fiscal abaixo do potencial.
O que os imigrantes trazem
- Preenchem 94% das vagas agrícolas sazonais
- 22% da mão-de-obra na construção
- €1.2B/ano em contribuições para a Segurança Social
- Sustentam sectores inteiros do turismo e serviços
O que desperdicamos
- 62% sobre-qualificados para o trabalho que fazem
- 18 meses para reconhecer um diploma estrangeiro
- Salário médio 22% abaixo dos nacionais na mesma função
- Serviços domésticos: 13.2% de desemprego imigrante vs 3.1% nacional
O que pode ser feito
O desemprego em Portugal não é uma fatalidade. É o resultado de escolhas políticas — e pode ser revertido com outras escolhas. Seis medidas concretas, baseadas em dados, que em conjunto podem reduzir a taxa de desemprego de 6.1% para 3.6% em cinco anos e criar 185 mil novos empregos.
01
Requalificação profissional massiva
Redução de 2-3% no desemprego em 3 anos
O gap entre procura e oferta de competências digitais é de 50%. Programação, cibersegurança, inteligência artificial — as empresas procuram e não encontram. Investir 200 milhões por ano para formar 50 mil pessoas nestas áreas pode reduzir o desemprego em 2-3 pontos percentuais em três anos. Não é teoria: a Estónia fez algo semelhante com o programa Tiigrihüpe e reduziu o desemprego tech a quase zero.
02
Incentivos reais às PME
35.000 novos empregos/ano
As PME representam 99.9% das empresas portuguesas e 72% do emprego. Reduzir a TSU em 50% nos primeiros dois anos para novas contratações de desempregados de longa duração, simplificar a burocracia de contratação (que hoje demora semanas) e criar linhas de micro-crédito para auto-emprego. O custo fiscal é recuperado em impostos sobre o trabalho criado.
03
Integração inteligente de imigrantes
140.000 trabalhadores formalizados
Reduzir o reconhecimento de qualificações de 18 para 3 meses. Criar programas obrigatórios de língua portuguesa com certificação laboral. Regularizar os 140 mil trabalhadores informais estimados. Cada imigrante que passa de sub-empregado a empregado qualificado paga mais impostos, consome mais e gera mais valor. Não é generosidade — é economia básica.
04
Garantia de emprego jovem
Reduzir taxa jovem de 21% para 12%
Estágios remunerados obrigatórios no último ano de formação — não estágios exploratórios sem salário, estágios reais com mentoria e contrato. Garantia de emprego ou formação dentro de 30 dias após registo no IEFP. Incubadoras regionais para empreendedorismo jovem no interior, combatendo simultaneamente o desemprego e a desertificação.
05
Reindustrialização selectiva
50.000 empregos industriais em 5 anos
Portugal desindustrializou-se e tornou-se dependente do turismo e dos serviços. Apostar em semicondutores, biotecnologia e energias renováveis — sectores onde já temos talento e localização geográfica favorável. Criar zonas económicas especiais no interior com fiscalidade competitiva para atrair investimento industrial. A Irlanda fez isto nos anos 90 e transformou-se numa potência tecnológica.
06
Reforma do subsídio de desemprego
Reduzir duração média de 8.4 para 5 meses
O subsídio actual não incentiva o regresso rápido ao trabalho. Proposta: torná-lo degressivo — 100% nos primeiros 3 meses, 80% até 6 meses, 60% até 12 meses. Condicionar à participação em formação profissional. E criar um bónus de reemprego: quem encontrar trabalho antes do fim do subsídio recebe 2 meses extra como prémio. Incentiva-se a acção sem abandonar a protecção.
IMPACTO COMBINADO DAS 6 MEDIDAS
185K
novos empregos
3.6%
nova taxa objectivo
€4.2B
PIB adicional
€1.8B
poupança social
O desemprego em Portugal não é uma força da natureza. É o resultado de décadas de desinvestimento na formação, de burocracia que sufoca quem quer contratar, de um sistema que não reconhece o talento dos que chegam, e de políticas que tratam os jovens como uma prioridade nos discursos e uma nota de rodapé nos orçamentos.
Cada ponto percentual que reduzimos no desemprego são 54 mil vidas transformadas e 1.2 mil milhões de euros devolvidos à economia. Não nos faltam soluções — falta-nos urgência.
Explorar os dados
Fontes: INE — IEFP — Eurostat — FFMS — Banco de Portugal — OIM
Este ensaio usa dados públicos do INE (Inquérito ao Emprego Q4 2025), IEFP (relatório mensal Jan 2026), Eurostat (base de dados Labour Force Survey) e estudos do Banco de Portugal sobre custos do desemprego. As estimativas de impacto das soluções são projecções baseadas em benchmarks internacionais.