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ENSAIO20 Fev 202612 min leitura

O custo social do desemprego em Portugal

Seis mil e duzentos milhões de euros por ano. Trezentas e trinta mil pessoas sem trabalho. Uma em cada cinco pessoas com menos de 25 anos que quer trabalhar não consegue. Estes números não são abstracções — são vidas suspensas, famílias sob pressão e uma economia que desperdiça o seu maior recurso: as pessoas.

6.1%

taxa de desemprego actual

€6.2B

custo anual para a economia

21.2%

desemprego jovem (15-24)

Os números por detrás dos números

Quando dizemos que a taxa de desemprego é de 6.1%, parece quase aceitável. A média da União Europeia é de 5.9% — estamos perto. Mas esta estatística esconde mais do que revela.

Primeiro, o desemprego jovem. Um em cada cinco portugueses entre os 15 e os 24 anos que procura trabalho não encontra. São 21.2% — mais do triplo da taxa nacional. Estes não são números de uma crise passageira. São números estruturais que se repetem há mais de uma década, condenando uma geração inteira a começar a vida adulta com atraso, sem autonomia e sem perspectiva.

Segundo, os números oficiais não contam os desistentes — pessoas que deixaram de procurar porque perderam a esperança. Não contam quem trabalha duas horas por semana num biscate. Não contam o imigrante com mestrado que limpa escritórios porque o seu diploma leva 18 meses a ser reconhecido. Se contássemos todos estes, a taxa real ultrapassaria os 10%.

DISPARIDADES REGIONAIS

7.8%

Algarve

7.2%

Lisboa Metro

4.8%

Centro

6.8%

Açores

O Algarve, dependente do turismo sazonal, tem a taxa mais alta. O Centro, com tecido industrial diversificado, tem a mais baixa.

O custo de que ninguém fala

Quando pensamos no custo do desemprego, pensamos nos subsídios. Mil quatrocentos e vinte milhões de euros por ano pagos a 182 mil beneficiários, com um valor médio de 562 euros por mês durante 8.4 meses. É muito dinheiro. Mas é apenas a ponta do icebergue.

O maior custo é invisível: a produção que não acontece. Cada pessoa desempregada é uma pessoa que não está a produzir, a consumir, a contribuir. O Banco de Portugal estima esta perda em 3.8 mil milhões de euros por ano — o equivalente a construir um novo aeroporto de Lisboa todos os anos e deitá-lo fora.

DECOMPOSIÇÃO DOS CUSTOS ANUAIS

Perda de produção (PIB)
61.3%3800M
Subsídios de desemprego
22.9%1420M
Custos de saúde mental
7.7%480M
Formação e requalificação
5.2%320M
Administração (IEFP, SS)
2.9%180M
Total€6.200M

O custo humano

Os números económicos são brutais, mas o custo humano é devastador. O desemprego não retira apenas rendimento — retira identidade, propósito e saúde.

Um desempregado de longa duração tem 2.3 vezes mais probabilidade de desenvolver depressão. Trinta e nove por cento reportam isolamento social. A cada mês sem trabalho, a empregabilidade cai 2% — cria-se um círculo vicioso em que quanto mais tempo se está desempregado, mais difícil é voltar. Depois de 12 meses, o salário a que se consegue aceder é, em média, 15% inferior ao anterior. O desemprego não é uma pausa — é uma cicatriz permanente na trajectória profissional.

Saúde Mental

2.3x

mais risco de depressão. 480 milhões por ano em tratamentos. O desemprego é um problema de saúde pública que não tratamos como tal.

Isolamento Social

39%

dos desempregados de longa duração reportam isolamento. Correlação directa com instabilidade familiar, divórcio e, nos casos mais graves, violência doméstica.

Cicatriz Salarial

-15%

de perda salarial permanente após 12 meses desempregado. As competências degradam-se, a confiança erode-se, o CV ganha um buraco que os recrutadores penalizam.

A geração suspensa

Portugal tem 105 mil jovens NEET — nem empregados, nem em educação, nem em formação. Cada um custa ao país 18.200 euros por ano em subsídios, serviços sociais e produção perdida. No total: 1.9 mil milhões de euros por ano. É o equivalente ao orçamento anual de uma cidade como Coimbra.

Mas o custo mais grave é o que não se mede: a emigração. Milhares de jovens qualificados que Portugal formou — com investimento público em educação — saem para trabalhar noutros países. Formamos engenheiros a 100 mil euros cada e exportamo-los a custo zero para a Alemanha, Holanda e Reino Unido. Cada jovem qualificado que emigra é um investimento público que gera retorno noutro país.

JOVENS NEET EM PORTUGAL

9.8%

taxa NEET

105K

jovens NEET

€18.2K

custo/jovem/ano

€1.9B

custo total/ano

O paradoxo da imigração

Portugal tem simultaneamente 330 mil desempregados e milhares de vagas por preencher. A construção não encontra serventes. A agricultura não encontra quem colha. A hotelaria não encontra quem limpe. São trabalhos que os portugueses, na sua maioria, não querem fazer — e são os imigrantes que os fazem.

Mas há um custo oculto nesta equação. A taxa de desemprego dos imigrantes é de 8.9% — quase o dobro dos 5.4% dos nacionais. Sessenta e dois por cento trabalham abaixo das suas qualificações: médicos a limpar, engenheiros em obras, professores a servir cafés. Recebem em média 78% do salário de um português na mesma função. Um diploma estrangeiro demora 18 meses a ser reconhecido — 18 meses de talento desperdiçado e de contribuição fiscal abaixo do potencial.

O que os imigrantes trazem

  • Preenchem 94% das vagas agrícolas sazonais
  • 22% da mão-de-obra na construção
  • €1.2B/ano em contribuições para a Segurança Social
  • Sustentam sectores inteiros do turismo e serviços

O que desperdicamos

  • 62% sobre-qualificados para o trabalho que fazem
  • 18 meses para reconhecer um diploma estrangeiro
  • Salário médio 22% abaixo dos nacionais na mesma função
  • Serviços domésticos: 13.2% de desemprego imigrante vs 3.1% nacional

O que pode ser feito

O desemprego em Portugal não é uma fatalidade. É o resultado de escolhas políticas — e pode ser revertido com outras escolhas. Seis medidas concretas, baseadas em dados, que em conjunto podem reduzir a taxa de desemprego de 6.1% para 3.6% em cinco anos e criar 185 mil novos empregos.

01

Requalificação profissional massiva

Redução de 2-3% no desemprego em 3 anos

O gap entre procura e oferta de competências digitais é de 50%. Programação, cibersegurança, inteligência artificial — as empresas procuram e não encontram. Investir 200 milhões por ano para formar 50 mil pessoas nestas áreas pode reduzir o desemprego em 2-3 pontos percentuais em três anos. Não é teoria: a Estónia fez algo semelhante com o programa Tiigrihüpe e reduziu o desemprego tech a quase zero.

02

Incentivos reais às PME

35.000 novos empregos/ano

As PME representam 99.9% das empresas portuguesas e 72% do emprego. Reduzir a TSU em 50% nos primeiros dois anos para novas contratações de desempregados de longa duração, simplificar a burocracia de contratação (que hoje demora semanas) e criar linhas de micro-crédito para auto-emprego. O custo fiscal é recuperado em impostos sobre o trabalho criado.

03

Integração inteligente de imigrantes

140.000 trabalhadores formalizados

Reduzir o reconhecimento de qualificações de 18 para 3 meses. Criar programas obrigatórios de língua portuguesa com certificação laboral. Regularizar os 140 mil trabalhadores informais estimados. Cada imigrante que passa de sub-empregado a empregado qualificado paga mais impostos, consome mais e gera mais valor. Não é generosidade — é economia básica.

04

Garantia de emprego jovem

Reduzir taxa jovem de 21% para 12%

Estágios remunerados obrigatórios no último ano de formação — não estágios exploratórios sem salário, estágios reais com mentoria e contrato. Garantia de emprego ou formação dentro de 30 dias após registo no IEFP. Incubadoras regionais para empreendedorismo jovem no interior, combatendo simultaneamente o desemprego e a desertificação.

05

Reindustrialização selectiva

50.000 empregos industriais em 5 anos

Portugal desindustrializou-se e tornou-se dependente do turismo e dos serviços. Apostar em semicondutores, biotecnologia e energias renováveis — sectores onde já temos talento e localização geográfica favorável. Criar zonas económicas especiais no interior com fiscalidade competitiva para atrair investimento industrial. A Irlanda fez isto nos anos 90 e transformou-se numa potência tecnológica.

06

Reforma do subsídio de desemprego

Reduzir duração média de 8.4 para 5 meses

O subsídio actual não incentiva o regresso rápido ao trabalho. Proposta: torná-lo degressivo — 100% nos primeiros 3 meses, 80% até 6 meses, 60% até 12 meses. Condicionar à participação em formação profissional. E criar um bónus de reemprego: quem encontrar trabalho antes do fim do subsídio recebe 2 meses extra como prémio. Incentiva-se a acção sem abandonar a protecção.

IMPACTO COMBINADO DAS 6 MEDIDAS

185K

novos empregos

3.6%

nova taxa objectivo

€4.2B

PIB adicional

€1.8B

poupança social

O desemprego em Portugal não é uma força da natureza. É o resultado de décadas de desinvestimento na formação, de burocracia que sufoca quem quer contratar, de um sistema que não reconhece o talento dos que chegam, e de políticas que tratam os jovens como uma prioridade nos discursos e uma nota de rodapé nos orçamentos.

Cada ponto percentual que reduzimos no desemprego são 54 mil vidas transformadas e 1.2 mil milhões de euros devolvidos à economia. Não nos faltam soluções — falta-nos urgência.

Fontes: INEIEFPEurostatFFMSBanco de PortugalOIM

Este ensaio usa dados públicos do INE (Inquérito ao Emprego Q4 2025), IEFP (relatório mensal Jan 2026), Eurostat (base de dados Labour Force Survey) e estudos do Banco de Portugal sobre custos do desemprego. As estimativas de impacto das soluções são projecções baseadas em benchmarks internacionais.